sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

O casebre

- Você está bem?
A garota abria seus olhos aos pouquinhos.
- Você está bem? – ouviu novamente.
Voltando-se viu uma senhora sorrindo. Estava sentada em uma cadeira ao lado da cama. Olhou ao redor. Era um casebre de madeira bem humilde.
- Onde estou? – perguntou a jovem ainda fraca.
- Em minha casa. Meu marido a encontrou desmaiada no pântano. Pelo jeito você tomou toda aquela tempestade.
- O que aconteceu com Eliot?
- Eliot?
- Sim.
- Não sei do que está falando – disse a mulher.
Mas antes que ela terminasse, ouviram outra voz vinda da porta, dizendo:
- Está se referindo ao regente da cidade dos magos?
Era um senhor franzino, com um enorme chapéu oriental. Olhando assim, parecia um andarilho ou algo do tipo.
- Esse mesmo. Quando saí de lá, ele estava lutando contra um homem. Queria saber se está bem...
- Então você fez mesmo uma longa viagem. Kirpa fica muito distante daqui.
- Muito distante?
- Descanse! Você está muito debilitada. Deve descansar bastante.
Sem fazer mais nenhuma pergunta, Izzy deitou-se novamente. Só pensava em como aquele círculo poderia tê-la trazido para tão longe e o que faria de agora em diante.

Durante muitos dias esse bondoso casal cuidou da jovem. Aos poucos, Izzy se recuperava e ganhava mais cor e força. Não havia comentado nada sobre o episódio no palácio de Eliot, nem quem era ou quem os magos achavam que ela era. Nesse tempo aprendeu mais e mais de como é dura à vida do povo de Farh. O casal se chamava Cassius e Mei. E mesmo com a convivência desses dias, Izzy não conseguiu saber muito sobre a história de vida deles. Só que aguardavam o retorno de seu filho.
Viviam da pequena plantação ao redor da casa e do artesanato de Cassius que conseguia transformar materiais colhidos no pântano, em objetos úteis como cadeiras, utensílios, etc. Ele era muito habilidoso com as mãos.
A bondade do casal fez com que a jovem se afeiçoasse a eles, cada dia mais. Izzy, por gratidão, ajudava a senhora nas tarefas domésticas.
Ao cair da tarde, a garota se afastava do casebre para juntar lenha. Os dias eram quentes, mas as noites extremamente frias. Enquanto trabalhava, olhava para o céu que nessa tarde estava especialmente bonito. Trazia lembranças de sua casa. Seria possível mesmo retornar? Ou deveria aceitar seu destino? Aquele casal a havia acolhido de tal maneira, que através deles quase conseguia se sentir em casa.
Já se aproximava do casebre, com os braços cheios de lenha, quando avistou um cavalo vindo em sua direção. Um repentino temor tomou conta de Izzy. Poderia ser o corcel negro? Ele teria a encontrado? No momento em que pensou em reagir, viu a velha Mei correndo em direção a ele.
- Cassius, depressa! É nosso filho!
O jovem deu um salto de cima do cavalo, como se a ansiedade por abraçar sua mãe o impedisse de definir a distância entre eles. A garota se surpreendeu ao ver o rapaz. Normalmente, jovens como aquele eram estudantes colegiais. Como um garoto daquela idade podia vir cavalgando? Trazendo em sua montaria objetos que comprovariam a longa viagem que fizera, além de um enorme arco e inúmeras flechas?
Enquanto abraçava sua mãe, o pai se aproximou e levemente curvou sua cabeça, uma demonstração singela de saudade e orgulho.
E o garoto arqueiro, voltando-se para a menina, perguntou:
- E esta? Quem é?
- Seu pai a encontrou no pântano perdida.
- Venha filho! – disse o velho – Temos muito a conversar.

O velho casal retornou para a casa acompanhados de seu filho. A moça vinha atrás trazendo a lenha que apanhou.
- Entre minha jovem queremos que conheça nosso filho – disse Cassius retirando o enorme chapéu da cabeça.
- Pai! Kirpa foi destruída. O exército da princesa, liderado pelo corcel negro, devastou tudo! Os poucos magos que sobraram se reunirão em Talgar para reorganizar a resistência e eu devo me juntar a eles!
A jovem, ouvindo que Kirpa havia sido destruída, interrompeu a conversa repentinamente.
- E Eliot? O que aconteceu com ele?
- Você conhece Lorde Eliot? Como pode conhecer o mais poderoso mago do mundo? Quem é você? Exijo que me diga agora mesmo.
O rapaz se alterou com a pergunta da moça. Como aquela jovem de aparência tão simples podia chamar o maior dos magos apenas pelo nome? O velho pai levou sua mão ao braço do jovem. Fazendo um sinal negativo com a cabeça. Aquele gesto deixava claro que desaprovava o interrogatório da garota. Já mais calmo se pôs a responder a pergunta:
- Ouvimos que ele pelejou contra o corcel negro, mas mesmo Lorde Eliot não conseguiu vencê-lo. O corcel ainda vive.
- E Eliot?
- Os rumores são de que aquele foi seu último sacrifício.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Na escuridão do pântano

A noite estava escura e sombria. Somente os relâmpagos iluminavam ao redor, anunciando a breve chegada de uma terrível tempestade. Sem saber explicar, Izzy se encontrava boiando numa enorme poça barrenta. Quando conseguiu assimilar tudo o que havia acontecido, apoiou-se nos cipós para conseguir sair. A lama negra estava por todo o seu corpo, tingindo seu uniforme escolar. Por mais que se esforçasse, não conseguia retirar por completo aquela densa lama preta. Com a ajuda dos raios, conseguia ver mais ou menos o que estava a sua volta.
- Onde eu estou! – gritava a moça em profundo desespero.
Sua voz ecoava, tornando a paisagem ainda mais horrível. O pavor foi tomando conta de seu coração. Não havia ninguém, nada além daquelas sombras de árvores que mais pareciam criaturas horrendas. Que tipos de animais se arrastariam por aquelas matas? – esse pensamento incitava mais ainda o pavor, que já não era pequeno.
Os estrondos dos trovões começavam a se intensificar e os clarões refletiam a mata como se fossem figuras sombrosas. A chuva começou a cair gelada. Cada gota que tocava sua pele, a fazia recordar ainda mais do conforto de sua casa. A cada passo, seus pés afundavam ainda mais no solo lamacento. Ajuda, naquele momento, parecia mais um conto de fadas.
As lágrimas escorriam pelo seu rosto, enquanto caminhava sem rumo. Se via sozinha e sem fazer a menor idéia de onde estava. Desejava não estar ali. Pensava em sua cama que era tão quentinha e em sua mãe, que sempre preparava coisas tão deliciosas na hora do jantar. Mesmo que o cardápio fosse simples, era o mais gostoso, pois ela tinha o dom de transformar algo comum em especial.
Deviam estar preocupados! Desesperados a minha procura! – pensava a garota. Nunca havia ficado fora de casa por tanto tempo.
- Por que eu? Por que tive que ir até aquele lago idiota? – sussurrava consigo mesma.
Aquilo era um pesadelo e tudo o que Izzy mais almejava era acordar. Seu corpo se tornava cada vez mais pesado. Sua visão estava turva. Não queria se entregar, mas, por mais que se quisesse, já não tinha mais forças para continuar a lutar contra o infortúnio. Cedeu à força da gravidade sem nem sentir o impacto. Seu corpo estava anestesiado pela chuva fria.
Em meio ao delírio, uma visão tomou os pensamentos da jovem. Já havia visto esses acontecimentos antes. Sim. Era a mesma visão que contemplara no lago. Bem mais intensa e real. Os gritos daquelas pessoas soavam aos ouvidos de Izzy como raios. Já não queria mais ver aquilo. Não queria ouvir aquelas vozes. O que uma garota como ela poderia fazer para impedir tamanho sofrimento? Não conseguia nem mesmo mover seu corpo que se encontrava estirado no lamaçal.
Aos poucos, outra imagem se formava. Não conseguia definir muito bem. Assemelhava-se a uma espécie de pêndulo. Lentamente a figura de um homem surgia por trás daquele pêndulo. Seu olhar era gentil, porém triste. Notava-se que tentava sorrir enquanto chorava. Parecia uma imagem familiar, mas não se lembrava de ter visto tal homem em toda sua vida. A imagem se tornara nítida. Não era um pêndulo e sim um enorme pingente. Ele possuía um medalhão, com um pingente no formato de esfera em volta do pescoço. Ela esticava seu braço para tocar o medalhão, mas não conseguia alcançá-lo.
Abriu os olhos e, quando outro clarão iluminou ao derredor, viu uma sombra misteriosa em pé, na sua frente. Não sabia definir se aquilo era real ou não. Se havia mesmo alguém ali parado ou não. Antes que tirasse essa dúvida, escureceu-lhe novamente a vista. Izzy perdeu os sentidos antes de descobrir que, aquela “sombra” era real até de mais.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Corcel negro

Do alto da torre Eliot, Izzy e os outros magos observavam a terrível batalha que se espalhara por toda Kirpa. De lá de cima se podia ver o forte guerreiro, montado em seu enorme cavalo negro, que comandava a ofensiva. Seu poder era estrondoso. Poderia vencer todo exército sozinho – pensava a garota, mas um pensamento como esse era assustador demais.
- Aquele homem destruiu a redoma Eliot? – indagou a jovem.
- Sim.
- Quem é ele?
- Seu nome é Kei-tar, mas é conhecido como o corcel negro.
- Corcel negro!?
- Ele é o mais poderoso guerreiro de Farh. É o guardião da princesa. Ele e seus sete discípulos formam a liderança do exército real.
Eliot falava com tanto pesar. Não conseguia esconder a tristeza de ver o corcel negro lutando e destruindo a cidade dos magos.
- É apenas questão de tempo até ele invadir o palácio. Venha! – disse Eliot voltando em direção ao salão principal.
- Para onde vamos? – perguntou Izzy.
- Você precisa fugir. Ele veio em busca de sua vida, e não vai parar até conseguir.
- Uma cidade inteira está lutando para me proteger?
- Todos nós morreríamos para protegê-la. – bradou o mago enquanto corriam em direção ao salão.
- Não podem fazer isso!!! Não sou quem vocês pensam que...
- Vigiem o portal! Tentem segurá-lo o máximo que puderem – exclamou Eliot para os outros magos.
Eliot e a jovem entraram sozinhos no salão principal.
- Todos aqueles magos podem apenas segurá-lo por algum tempo?
- Infelizmente sim – respondeu.
De costas para a garota, o mago fechou seus olhos e segurou firmemente o báculo dourado. Começou a se concentrar. Estava pronto para realizar alguma coisa.
- Ele era seu amigo, não era? - perguntou a jovem com o olhar fixo na figura do mago.
Imediatamente Eliot abriu os olhos, como se a pergunta fosse um afiado punhal, que acabaram de enterrar em seu peito. Sem se virar, respondeu:
- Sim.
- E por que se tornaram inimigos?
- A minha fidelidade é apenas para com o povo de Farh; a fidelidade e o coração dele são apenas para a princesa.
O mago novamente voltou a se concentrar. Em seguida uma pequena luz formou-se em sua mão direita. Parecia um objeto, mas era tão brilhante que não dava para definir sua forma. Virando-se para Izzy colocou aquela luz em sua mão. De repente “aquilo” começou a penetrar sua pele. A garota olhava assustada, porém não sentia dor alguma. Penetrou completamente de forma que já não havia mais nada em sua mão. Entregou-lhe também uma espécie de saquitel.
- Estas coisas lhe serão muito úteis em sua jornada.
A garota ergueu a cabeça e olhou-o com espanto.
- Eu já lhe disse que está em suas mãos decidir se vai ou não cumprir sua missão, Izayoi. Mas, infelizmente, creio que agora se tornou uma questão de sobrevivência. Se decidir não lutar, imagino que quando esta terra for destruída, você retornará ao seu mundo. Até lá, terá que ficar viva.
Inesperadamente ouviram estrondos que vinham detrás do portal e por suas frestas podiam ver os clarões das explosões.
- Entre no circulo – disse Eliot.
- Mas... e você?
- Não se preocupe comigo! Vá!
Izzy correu até o círculo mágico, mas antes que pisasse naquela água, as duas gigantescas portas, que formavam o portal de entrada, voaram para dentro da sala. Em meio à nuvem de poeira, a figura de um homem se aproximava. Aquele era o corcel negro? – pensava a garota. Era um jovem de uma beleza inigualável. Seus cabelos eram vastos e negros como a noite; seus olhos eram de uma cor estranha, cor de mel talvez. Olhando de frente parecia que seus cabelos eram curtos, somente em alguns poucos momentos, se percebia a fina e comprida trança que corria por suas costas. Seu corpo era coberto por uma armadura escura e uma capa que se arrastava pelo chão. Trazia consigo uma imponente espada prateada.
- Então... você foi capaz... – disse o jovem.
- Veja o rosto dela. Ela é autêntica! – afirmou o mago.
- Ela é abominação! – gritou o guerreiro.
Como um raio, o corcel negro sacou sua espada e num salto extremamente habilidoso, já se encontrava em cima de Izzy, pronto para golpear a moça. A jovem virou-se, fechando firmemente os olhos, como se não houvesse mais salvação, quando escutou o estridente timbre da espada se chocando em outro metal. A garota abriu os olhos e viu Eliot defendendo o golpe mortal do corcel, com seu báculo.
- Entre na água! – bradou o mago.
- ELIIIOOOTTTTT!!!!!
- Vá!!! Agora!!!!
Izzy pisou no circulo. Era feito de água, mas firme como chão. Aos poucos começou a afundar como se estivesse sendo tragada por areia movediça. Assistia de longe a assustadora luta entre o mago e o corcel, enquanto ia, lentamente, entrando naquele círculo. Seu corpo mal havia acabado de entrar por completo na estranha água mágica, quando viu a ponta de uma lâmina ficar a milímetros de distância do seu rosto. Neste momento percebeu que aquele homem jamais desistiria.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

A lenda do metal vivo

O coração da jovem palpitava cada vez mais acelerado. Que verdade seria essa? Tudo o que Izayoi queria era saber um meio de voltar para sua casa. Começou a olhar fixamente para o círculo de água.
Os magos ao redor entregaram a Eliot um báculo dourado.
- Não vejo nada – disse Izzy.
Eliot tocou a borda do círculo com o báculo. A água começou a ficar agitada.
- E agora? – perguntou o mago.
A água mágica começou a mostrar imagens de um mundo que Izayoi não conhecia. Mostrava o céu, florestas, aldeias, crianças brincando, animais e tantas outras coisas que a encantaram. Eram lugares lindos.
- Sim. Diversas imagens – respondeu a garota.
- Esta é Farh.
- Então existem muitos outros lugares além deste? – indagou com espanto.
- Kirpa é apenas uma pequena gota em um oceano. Todas essas imagens que você vê são lugares de Farh.
- E como eu nunca ouvi falar desse lugar antes. Está no mapa mundi? Os cientistas já descobriram? – questionava a garota, já imaginando que havia feito uma descoberta científica.
Eliot sorriu mais abertamente.
- Farh fica localizado no mundo interior. Você vivia no mundo exterior. Não há conexão entre os mundos. Ninguém daquele mundo pode vir a este, a não ser o escolhido.
- Escolhido?
Eliot, mais uma vez, tocou o círculo com seu báculo. Neste instante as imagens mudaram novamente. Mostrava, agora, lugares sendo cobertos por uma densa escuridão, e um medalhão.
- Este é o medalhão do poder. Toda Farh é mantida por ele. Ninguém sabe ao certo a extensão de seus poderes. Só a dinastia real pode controlá-lo. Aquele que tiver o controle sobre ele pode trazer a paz ou caos para Farh, pode salvar ou destruir. Todos os reis que se assentaram no trono desejavam a paz, e nossa terra se manteve estável, pelo menos até agora.
Eliot abaixou a cabeça em sinal de tristeza.
- O nosso Rei Zef faleceu e deixou o trono para sua herdeira Izabo. O extremo poder do medalhão a corrompeu, e Farh está sendo tragada pelas trevas assim como o coração da nossa princesa. O nosso mundo não tem outra escolha, se o medalhão não for destruído, logo estará completamente na escuridão. Isso já foi previsto numa profecia muito antiga.
- Se o medalhão for destruído, esse mundo não será destruído junto com ele? – perguntou a moça.
- Diz à lenda que um guerreiro escolhido do mundo exterior viria a este mundo. Com sua força, despertaria a única arma capaz de destruir o medalhão do poder. A arma que dorme nas longínquas terras de Kinslei, onde o céu toca o chão. Ela foi forjada com um raro metal, que sobreviveu desde os tempos mais antigos. Metal que possui vida. No nosso mundo não há mais nenhum metal como este. Com essa arma, destruiria o medalhão corrompido e o poder que rege nosso mundo seria purificado, se restaurando em outro símbolo, trazendo a paz para sempre.
- Metal vivo?
- Exatamente, por isso ninguém sabe que forma essa arma lendária possui.
- Como você conseguiu flutuar sobre o lago? Como conseguiu fazer aquilo com o chão?
- No mundo em que foi criada, tudo em que se acredita é naquilo que se pode tocar, porém aqui você deverá aprender a crer em coisas muito além do que seus olhos podem ver; naquilo que ainda não pode tocar.
-Então, você conseguiu fazer todas aquelas coisas simplesmente acreditando?
- Acreditar não é simples. Tirar por completo todas as dúvidas do coração pode-se levar tempo.
- E esse guerreiro lendário, poderá fazer todas essas coisas?
- Isso e muito mais. Poderá evocar poderes ainda mais fantásticos, utilizando apenas a força de seu coração.
- E você presume que esse guerreiro sou eu?
- Somente o escolhido pode atravessar os mundos.
- Deve haver algum engano. Eu jamais peguei numa arma antes, nem mesmo numa de brinquedo. Não sei lutar. Sinto muito pelo problema de vocês, mas isso não tem nada haver comigo. Não consigo nem ficar em primeiro lugar no teste geral. Eu não sou esse guerreiro lendário. Vocês pegaram à garota errada.
- Sua vida tem um propósito. Não nasceu por culpa do acaso, mas está em suas mãos cumprir com esse propósito ou não.
A jovem sentia um aperto em seu peito. Será que aquela visão que teve antes de chegar aqui era do futuro? O futuro negro que esperava o povo de Farh? Daria as costas para um povo inteiro? - um grito ecoou no salão tirando a garota de seus pensamentos.
- Mestre! Mestre! – gritou-se atrás do enorme portal do salão principal.
- Portal! – disse Eliot, apontando o enorme báculo.
Imediatamente o portal se abriu e um dos homens que pertencia à escolta entrou na sala em desespero.
- O escudo foi quebrado. Nossos homens se preparam para a batalha.
- Só há uma pessoa com poderes para tanto – afirmou o mago comandante.
- Quem poderia fazer algo assim, Eliot? – disse Izzy interropendo a conversa.
Eliot olhou para o chão com o semblante caído, como alguém que lamenta profundamente. Novamente ergueu seu rosto e virando-se para jovem respondeu:
- O corcel negro.

domingo, 17 de dezembro de 2006

A cidade dos magos

Caminhavam por uma trilha na floresta. Aquele que disse se chamar Eliot ia à frente. Notava-se que ele era o comandante daqueles homens. A paisagem parecia ser uma floresta comum, as árvores eram enormes e belas. Todos aqueles homens que estavam ao redor do lago, acompanhavam-na pelo caminho. Era uma numerosa escolta.
Izzy andava cabisbaixa. Para onde estão me levando afinal? – pensava assustada. Onde seria esse castelo ao qual aquele homem havia mencionado?
Por todos os lados que se olhasse, só se via árvores e mata. À medida que caminhavam, se aproximavam cada vez mais de um gigantesco penhasco. Aquele lugar não passava de uma enorme floresta. Cidade dos magos? Como poderia haver uma cidade ali? – indagava consigo mesma. Quando chegou a beirada do penhasco, olhava para frente, para o horizonte e via apenas às milhares de árvores que cobriam toda aquela área enorme.
- Onde está a tal cidade? – perguntou.
Eliot sorriu levemente e com a cabeça, apontou para baixo.
- Nossa! – disse a garota perplexa – Eu nunca vi nada igual em toda minha vida!
A visão realmente tirou o chão de seus pés. Era magnífica, e vista de cima era mais esplêndida ainda. Uma cidade que parecia ser toda construída com cristal, com suas imensas torres ponte-agudas. Estava envolvida em uma enorme redoma transparente. Os raios de luz que batiam nessa redoma, refletiam espectros coloridos. Por isso a grande cidade resplandecia como um arco-íris. Izzy nem se movia. Poderia ficar horas admirando aquela beleza.
- Devemos ir agora – disse o mago comandante.
Ir? – pensou a jovem – Como? Este penhasco é enorme? Não há como chegar até lá. Será que fazem rapel por aqui? – questionava ainda em seus pensamentos.
Eliot riu novamente.
- Não se preocupe – disse.
Logo após, olhou firmemente para o chão e disse: - Terra!.
Quando Eliot terminou de pronunciar esta palavra, o chão começou a mudar e tomar forma de uma grande escada que os levaria lá em baixo, até a cidade. Mais uma vez o mago conseguiu deixar a jovem atordoada e sem saber em que acreditar.
Desceram até a cidade. Izzy questionava-se, pois já era a segunda vez que Eliot respondia-lhe uma pergunta feita apenas em seus pensamentos. Poderia ler minha mente? – pensou. Queria fazer o teste.
- Esse mago feio, parece não saber de nada. Por que será que anda descalço? Deve ser porque não tem sapatos – começou a pensar. Enquanto ela ainda pensava, Eliot virou-se de maneira brusca para olhar a menina. Lançou um olhar feroz, como que se emitisse raios através dele. A garota rapidamente se escondeu atrás do homem que estava ao seu lado. Acabara de confirmar; realmente ele podia ler seus pensamentos.

Chegaram a um enorme castelo que ficava no coração da cidade. Nele entraram apenas Eliot e Izzy. A escolta ficou toda do lado de fora. Conforme iam caminhando dentro do palácio, as pessoas se curvavam em reverência.
No salão principal, havia vários magos a espera deles. Todos em volta de uma espécie de círculo no chão. Parecia conter água ou alguma espécie de líquido. Uma parte do chão era feita de água pelo que parecia. Havia também várias colunas que sustentavam o alto teto.
- Deixe eu me apresentar de maneira correta. Sou Eliot, regente de Kirpa, a cidade dos magos - disse o mago comandante.
- O prefeito foi me buscar pessoalmente! – bradou a jovem espantada.
Eliot sorriu gentilmente dizendo: - Você é muito mais do que pensa que é Izayoi.
- Por que eu estou aqui? Que lugar é este onde coisas tão estranhas acontecem?
- Aproxime-se do círculo.
Izzy caminhou até a beira do círculo.
- Limpe seu coração, Izayoi. Esqueça-se de tudo o que aprendeu. Você verá agora somente a verdade.
Mas será que ela queria mesmo saber? Qual seria o preço dessa tal verdade?

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

O retorno

Sentia que seu corpo já não obedecia mais aos seus comandos. Sabia que estava caindo. Mas para onde? Quem poderia saber? Era, na verdade, uma grande queda. Ainda sentia o vento. Ainda podia ver a luz. Seu corpo apenas caia em câmera lenta. Quando sentiria a sensação da água?
Lentamente a sensação foi mudando de queda para mergulho. E a escuridão tomou conta de sua visão por completo. Tudo o que ouvia, agora, eram aquelas vozes chamando por seu nome, como se fossem inúmeras orações.
Quem somos? De onde viemos? E para onde vamos? Pareciam perguntas tão sem significado agora. Que pensamento, esforço ou capacidade humana poderia evitar o que era inevitável? Izzy sabia que logo chegaria a algum lugar. A pergunta maior era: o que encontraria lá?
A escuridão começava a se dissipar. Podia ver novamente. Ver os raios de luz dentro da água. Tudo o que tinha que fazer era nadar até a superfície. O alívio tomou conta de seu coração. Havia uma saída. Nadou desesperadamente até chegar à superfície. Inspirou com tanta alegria, que parecia ser o ar o bem mais importante que um dia já tivera. Porém a luz incomodava-lhe. Era forte demais. Aos poucos, suas frágeis pupilas iam se acostumando com aquele brilho ofuscante.
Olhou ao redor e viu homens vestidos de branco, ajoelhados em volta do lago. Todos estavam com a cabeça baixa, como se não ousassem olhar para o que se encontrava diante deles.
Onde estou? – pensou atordoada.
- Está em Kirpa – ouviu repentinamente - Esta é a cidade dos magos. Está em segurança, entre amigos.
A jovem virou-se, bruscamente, para ver de onde vinha tal resposta. Ainda esforçava-se para que seu corpo não afundasse por completo, quando viu aquela estranha figura. Era um homem, vestido com um estranho manto carmesim. Tinha cabelos compridos, olhos escuros e gentis. Aproximava-se do lago, com os pés descalços. Estava a alguns metros de distância, mas Izzy ouviu sua voz nitidamente, como se estivesse falando com ele frente a frente.
Os braços da garota já estavam cansados. Não conseguia mais manter-se boiando sobre a superfície do lago. Começou a afundar. Lutava para colocar a cabeça para fora, mas seus esforços pareciam inúteis. Num pequeno momento, em meio a esses esforços, viu aquele homem. Estava diante dela, flutuando por sobre o lago. Pensava ser um delírio que antecede a morte.
- Não pode ser real – afirmava dentro de si com plena convicção. Convicção que durou até o momento em que ouviu aquela mesma voz que ouvira antes dizendo: - Água já basta!
Imediatamente seu corpo parou de afundar. Era como se a água começasse a sustentar seu corpo. Agora se mantinha firme, com parte do corpo fora da água sem esforço nenhum. Olhou para aquele estranho indivíduo querendo agradecer-lhe, mas não saia voz alguma de sua boca. Estava perplexa demais para conseguir falar.
- Sou Eliot – disse o homem estendendo a mão em direção a jovem.
Izzy gesticulou com a cabeça em sinal de agradecimento e colocou, suavemente, sua mão sobre a dele. Neste momento seu corpo começou a emergir. Em poucos segundos estava completamente fora da água, contudo sentiu algo sólido sob seus pés. Olhou para baixo e o lago havia se solidificado, como se tivesse se transformado em vidro.
Todos os que estavam em volta do lago começaram a se aproximar.
- Eu morri? – perguntou a garota com a voz fraca.
- Não. Apenas retornou.
- Retornei? – indagou, agora com a voz mais forte.
- Venha comigo até castelo e todas as suas perguntas serão respondidas.
- Tenho que voltar para casa.
- Casa? Esta é sua casa.
- Não é real. Não pode ser real.
- Não duvide. É sua missão e seu destino.
Um estranho sentimento começou a tomar conta do coração de Izayoi. Que destino seria esse que a aguardava?

sábado, 9 de dezembro de 2006

A visão no lago

Durante toda a aula, não se atreveu a abrir o bilhete. Logo voltou a realidade. Nenhum garoto jamais havia se interessado por ela. Não era do tipo de garota muito atraente. Lembrou-se que o único que havia lhe feito uma declaração de amor era o Melvin e ele acreditava ter vindo de uma galáxia distante. Com certeza é algum tipo de brincadeira! – esse pensamento se fixava, cada vez mais, em sua mente.
Estava tão concentrada em seus próprios pensamentos que nem percebeu o sinal tocar, muito menos que o dia já havia passado.
- E aí? O que diz o bilhete? – perguntou Chidori euforicamente.
- Hum?- Izzy nem havia percebido que sua amiga se aproximara.
- Alo! Acorda! O que diz o bilhete? Será que é algum admirador misterioso? – perguntou a amiga em meio à gargalhadas.
- Ainda não vi.
- Como não viu? Deixa eu ver – disse, tomando-o rapidamente das mãos de Izzy.
- Ei!
- Me encontre na ponte do lago após a aula. – lia com entusiasmo - É um encontro! Você tem um encontro!
- Com certeza é o Melvin querendo me mostrar suas formigas galácticas.
- Não vai saber se ficar parada aí. Anda! Já faz dez minutos que a aula acabou. Você tem que se apressar. O que está esperando?
- Quem disse que eu vou?
- De qualquer maneira sua casa fica nessa direção. Vai ter que passar por lá mesmo. Não te custa dar uma olhadinha. Vamos logo! – a jovem puxou fortemente o braço de sua amiga, levando-a em direção a porta.

Durante o percurso, Izzy só pensava em formas de dar um “fora” em Melvin.
Talvez se dissesse que alienígenas não existem? Não, isso seria desiludi-lo demais – pensou.
- Lá está. Boa sorte! – disse Chidori dando um tapinha nas costas da amiga.
- Ei, você não pretende... – disse virando-se para amiga, mas esta, já estava a metros de distância - Não perderei nada indo até lá. O lago é sempre tão bonito a essa hora do dia – disse com resignação.

É verdade. O lago era sempre lindo e, ao cair da tarde, parecia mais bonito ainda. Ficava escondido em meio às robustas árvores que povoavam todo aquele bosque.
Havia apenas uma pequena ponte que ligava as margens do lago. Sua madeira era antiga, porém sua aparência ainda era forte, pelo jeito era resistente ao tempo. A água era sempre límpida, tanto que dava para ver os diversos peixes claramente, como num enorme aquário.
Izzy se aproximou lentamente da ponte. Não havia ninguém nela e relutava consigo mesma sobre a possibilidade de uma espera. Aquela paisagem majestosa era a única razão dela ainda permanecer ali.
Fixava o olhar para o horizonte, enquanto se aproximava do centro da ponte. Aquela vista maravilhosa, aos poucos, a fazia esquecer a razão pela qual havia vindo. Seu coração, cada vez mais se esvaziava de sua vida. Neste momento, seus pensamentos foram interrompidos por um leve sussurro que dizia: - Izayoi...
Olhou para os lados em busca do autor do chamado, mas não havia ninguém. A voz se tornava cada vez mais forte e já não se podia mais discernir se era voz ou vozes que, incessantemente, ecoavam dizendo: - Iza... - yoi...
Voltou seus olhos para o lago que, estranhamente, se tornara negro. A água escura refletia sua imagem como um espelho. Aos poucos, a imagem refletida mudava sua forma. Mostrava, agora, pessoas em fuga pelo desespero, estranhas construções vindo a baixo e uma cidade tomada pelas chamas.
A garota permanecia imóvel. Seus olhos pareciam não acreditar no que via. Sua alma fora tomada completamente por aquela estranha visão. O que poderia ser aquilo? – pensava. Era diferente de tudo o que já havia visto.
Seu corpo se inclinava cada vez mais na ponte. Talvez, se tocasse o lago, ele voltaria ao normal – imaginava. Só que já não havia mais ponte, nem lago e muito menos como voltar atrás.